Estratégias para trabalhar os solos. Transformando desertos em ambientes produtivos para o homem com a permacultura.



Uma das coisas mais gostosas de fazer no dia a dia do assentamento humano permacultural é criar canteiros e ilhas de fertilidade para futuros plantios. Pode ser um trabalho leve, exigindo de nós apenas a paciência de seguir um dos princípios mais lindos da permacultura: “deixar a natureza trabalhar a nosso favor”.

Nosso canteiro hoje: 3 pés de tomate produzindo com mais de 80 frutos verdes a colher, coentro, espinafre, couve, alface, alho e outros em um cantinho de menos de 50 cm de largura por 2 m de cumprimento.







Olha só como era esse canteiro antes, há apenas alguns meses. Tudo que fizemos foi acumular matéria orgânica, no local. Os passos pra isso eu explico abaixo.


Atualmente, nossa missão como permacultores nos levou a trabalhar numa área que tem lá suas dificuldades, embora não seja o terreno mais difícil com que já lidamos. O solo é arenoso, então a água infiltra com facilidade e o ambiente fica facilmente seco.  As plantinhas ficam castigadas pelo Sol e mortas de sede, como num deserto. A matéria orgânica vai ressecando e dificilmente consegue cobrir o solo e transformá-lo em terra preta, boa para plantio.


Nessa foto dá para ter uma idéia da característica do nosso local de trabalho. Escritório da vida. No tempo da natureza e da nossa iniciativa, queremos ver ali um oásis.
Uma coisa que tem dado muito certo e na qual eu acredito é o “NoTill Gardening”: agricultura sem aração e reviramento do solo. Eu uso o termo em inglês pois vi pela primeira vez uma teorização sobre isso num vídeo de uma turma da Inglaterra, mas eu sempre acreditei nesse princípio desde que comecei a estudar permacultura e aprendi que tudo que precisamos saber a natureza já ensina. Basta observar como a natureza torna fértil os solos sem precisar de arados e enxadas. Como eu compartilho da máxima “se você está fazendo muito esforço, então alguma coisa no seu sistema não está trabalhando a seu favor” e no princípio da permacultura de que os sistemas sustentáveis geram toda a energia de que necessitam, então também acho que não preciso me matar sob o Sol para cultivar meu alimento, mas trabalhar com inteligência para produzir ciclos fechados.

Então, no nosso trabalho com esse solo arenoso, resolvemos adotar a seguinte estratégia:

1) Partir das sombras das árvores para fazer os primeiros plantios. Por mais que as plantas pioneiras gostem de Sol, no ambiente desértico em que estamos trabalhando, a sombrinha ajuda a criar um microclima para que os nossos plantios não se torrem ao Sol e morram.

Exemplo da nossa estratégia de canteiro: um pé de milho crescendo abaixo de duas candeias. As verdades são relativas: nem sempre o milho só cresce se for direto sob o Sol. Bastante cobertura morta ou mulch para proteger o solo do ressecamento.

2) Fazer o trabalho de formiguinhas, cobrindo os canteiros com gravetos e podas de material seco que tiramos dos arbustos que vão morrendo no terreno e dos capins que vão crescendo e cobrindo algumas áreas. Não arrancamos nada com raiz, só roçamos e tiramos o material que vamos aproveitar, transportando-o para outro lugar, exatamente como as formigas cortadeiras. Daí o capim acaba rebrotando para gente se servir dele de novo. É um sistema em que o mato é muito bem-vindo, nosso amigo e aliado.

 Por baixo, terra boa, nutrientes, gravetos e troncos que liberarão lignina e carbono para o solo quando decompostos.

Por cima, bastante palha que vai ajudar a terra a ficar fresquinha por baixo e favorecer a compostagem dos gravetos e podas, transformando-os em terra preta. Depois, para favorecer a decomposição, ainda vamos jogar um biofertilizante em  cima

A gente teve sorte: um vizinho roçou o pasto e sabendo que amamos essa palha, ofereceu o material pra gente. Nossos olhos brilharam: sabemos que a natureza trabalha pra gente pra transformar isso em terra da melhor qualidade.


3) Procurar seguir a curva de nível. Estudar a declividade do terreno e usá-la a nosso favor para capturar a água de chuva para os canteiros e árvores, não a deixando escorrer e lavar o solo, o que forma erosões e arrasta nutrientes.

A gente tirou as curvas de nível do terreno e foi furando uma vala que vai favorecer a infiltração da água das chuvas. Logo abaixo da vala, vamos cobrindo o solo com matéria orgânica para criar canteiros que vão se favorecer com a umidade acumulada. O papelão vai evitar que a umidade evapore. É bom ir molhando para acelerar a decomposição da matéria orgânica.


Depois da camada de papelão e restos orgânicos de cozinha, cobrimos tudo com palha. Em alguns meses e molhando sempre, isso vai se transformar numa terra mais fértil. No detalhe, acima da camada coberta, a vala em curva de nível.

3 comentários:

Thiago Moura disse...

Muito legal Utsch! Parabéns pelos trabalhos e muito bacana compartilhar o conhecimento e a experiência!
Grande abraço e mucha Luz e Força a vocês!

Marina Utsch disse...

Legal Moura...valeu! Conto com sua ajuda!

Marina Utsch disse...

Legal Moura...valeu! Conto com sua ajuda!